Doenças oculares são manifestações clínicas que preocupam bastante a grande maioria das pessoas. Afinal, a visão é um dos nossos sentidos mais importantes. O humano, sem enxergar, pode ficar prejudicado em vários aspectos da sua vida pessoal e, é claro, profissional. Por esse motivo é tão importante que todos tenham o hábito de visitar o oftalmologista regularmente — assim como fazemos com outros médicos, como o clínico ou o cardiologista — para garantir que a sua visão esteja sempre preservada e com boa qualidade.

Dentre as várias doenças que podem atingir a visão humana — a exemplo da miopia,do astigmatismo e da hipermetropia —, uma ainda não é tão popularmente conhecida e preocupa muitos pacientes quando diagnosticada no consultório do oftalmologista: o ceratocone.

Você sabe o que é essa doença ocular e se o ceratocone tem cura? Confira tudo sobre esse assunto no nosso artigo de hoje!

O que é o ceratocone?

O ceratocone é uma doença na qual a córnea desenvolve um formato de cone ao invés de seu formato esférico habitual, distorcendo e embaçando a visão com graus variáveis de miopia e astigmatismo. Apesar de não ser popularmente conhecida como uma manifestação ocular preocupante, o ceratocone é uma condição clínica mais comum do que imaginamos, já que ocorre em 1 em cada 20.000 indivíduos e é também o principal motivo que leva ao transplante de córnea no Brasil.

É uma doença progressiva, que costuma surgir na puberdade, e evolui até em torno de 40 anos, onde normalmente atinge sua estabilização. O acometimento é variável em cada pessoa, podendo alguns desenvolver, uma forma avançada ainda jovens, enquanto outros apresentam quadros frustros (leves).

Quais são os sinais e sintomas do ceratocone?

Os principais sintomas do ceratocone são:

  • Visão borrada para longe ou visão dupla;
  • Mudanças frequentes na prescrição do óculos (geralmente durante a adolescência);
  • Visão insatisfatória mesmo com o uso de óculos;
  • Visão nítida apenas para objetos muito próximos;
  • Fotofobia;
  • Coceira excessiva (presente em até 20% dos pacientes com a doença).

Esses sintomas comumente relacionados ao ceratocone são uma consequência de alterações estruturais que ocorrem na córnea e que a tornam mais fina e sensível, resultando nas percepções citadas acima.

Quem pode ter ceratocone?

O ceratocone é uma doença desenvolvida por fatores genéticos, não precisando existir uma causa para que ela se manifeste em um indivíduo. A medicina, apesar de explorar bastante estudos sobre o tema, ainda não conseguiu identificar o que desencadeia as reações inflamatórias que levam ao desenvolvimento da doença e quais são os pré-requisitos para apresentar essa condição oftalmológica.

Apesar de ser mais diagnosticada na vida adulta, na faixa etária dos 35 a 40 anos, o ceratocone é comumente manifestado na adolescência e, em alguns casos, até em indivíduos idosos. Acredita-se que quanto mais cedo é identificada a doença, apesar de ser interessante para iniciar um tratamento precoce, maior é a gravidade do ceratocone, visto que ele poderá ser mais agressivo e avançar mais rapidamente.

Apesar de ser uma condição clínica preocupante, essa é uma doença de evolução lenta e que tem a sua piora agravada com a tendência dos pacientes em coçar os olhos, devido a sensação de irritação frequente na região, associada a quadros de alergia ocular.

Geralmente muitas pessoas confundem os sintomas iniciais do ceratocone com o astigmatismo, já que essa condição também se manifesta por sensação de visão borrada e formação de imagem ocular de baixa qualidade. Apesar disso, quando o grau do astigmatismo é trocado com muita frequência, é possível começar a suspeitar de um provável quadro de ceratocone.

Como diagnosticar o ceratocone?

Muitos casos são diagnosticados ao exame de rotina por baixa visual, onde não se consegue atingir uma acuidade normal com os óculos. Casos suspeitos tem indicação de exame diagnóstico, sendo a Topografia de Córnea um dos primeiros e a ser realizado.
Exames complementares importantes: 

Topografia de Córnea:
avaliação da curvatura anterior da córnea, detectando irregularidades e distorções na superfície do olho.
                   topografia de cornea ceratocone clinica de oftalmologia integrada              ceratocone imagem topografia de cornea clinica de oftalmologia integrada campo grande rj
Paquimetria Ultrassônica: mede a espessura da córnea (o ceratocone costuma evoluir com distorção e afinamento da córnea).
paquimetria ultrassonica no ceratocone
Tomografia de Córnea: avaliação de curvatura anterior e posterior da córnea, em conjunto com sua espessura em diferentes pontos.
tomografia de cornea no ceratocone
Além dos exames acima, é importante realizar o Mapeamento de Retina, para afastar qualquer perda de visão associada a doenças da retina ou do nervo óptico.

Pelo fato dos exames acima serem realizados de rotina nos candidatos à cirurgia de miopia e astigmatismo a laser, é muito comum na prática clínica diagnosticarmos o ceratocone nos pacientes interessados neste tipo de cirurgia. A cirurgia refrativa a laser nos pacientes com ceratocone deve ser cautelosamente avaliada pelo médico oftalmologista.

Como tratar o ceratocone?

O tratamento do ceratocone pode ser realizado com várias frentes de abordagem, sempre com o intuito de controlar o desconforto e minimizar as lesões ocasionadas na córnea do paciente que apresenta essa doença. A intenção dos profissionais de oftalmologia é tentar preservar ao máximo a saúde da córnea — que se prejudica com as reações dos pacientes aos sintomas — e postergar a realização de algum procedimento cirúrgico.

De um modo geral, o tratamento aborda o uso de colírios específicos para diminuir o desconforto na região, e assim a progressão da doença associada ao ato de coçar os olhos. Nos quadros iniciais pode nem haver a necessidade do uso de óculos, por ainda apresentar 100% de visão. Nos casos em que a doença provoca uma perda de visão, os óculos são o primeiro recurso, pois em grande parte dos casos ainda restabelece a visão.

Quando mesmo com os óculos não se consegue este objetivo, as lentes de contato especiais para ceratocone são valiosas e extremamente úteis. As diversas lentes disponíveis no mercado restabelecem mesmo acuidades visuais muito baixas, com conforto e ganho de campo de visão. O surpreendente resultado das lentes é devido a regularização da superfície ocular, criado com a formação de um filme lacrimal entre a lente e a córnea.

Entre as diferentes lentes de contato para o restabelecimento da visão nos pacientes com ceratocone, destacamos as lentes de contato rígidas gás permeáveis comuns (que podem ser utilizadas em ceratocones leves), as lentes rígidas gás permeáveis especiais para ceratocone (utilizadas para quaisquer tipos de ceratocone) e as recentes e promissoras lentes esclerais (com tamanho bem maior que as lentes convencionais, porém muito mais confortáveis). Vale comentar, que em ceratocones bem iniciais e específicos, há a possibilidade de se adaptar lentes de contato gelatinosas com um relativo grau de sucesso.

LEIA TAMBÉM:  Quando fazer o crosslinking?

Como o ceratocone é uma doença progressiva, por muito tempo acreditou-se que não existiria controle para essa condição clínica. Porém, com o avanço da medicina oftalmológica, hoje muitas intervenções cirúrgicas são capazes de controlar a lesão na córnea e restaurar a sua função ocular.

Algumas das alternativas utilizadas para tratar — e controlar — o ceratocone são:

Crosslinking da Córnea

Visando evitar a progressão do Ceratocone há o procedimento (cirurgia) chamado Crosslinking, que consiste na aplicação de radiação ultravioleta sobre a córnea  embebida em riboflavina (vitamina B12). Obtém-se assim um fortalecimento do colágeno corneano, impedindo que continue havendo o remodelamento responsável pela evolução do ceratocone.

crosslinking corneano realizado numa córnea com ceratocone

Qual é a indicação do Crosslinking?

A indicação do Crosslinking é para os casos de ceratocone em progressão, constatado pela topografia de córnea repetida em alguns meses. Porém, nem todos os portadores de ceratocone em progressão poderão realizar o procedimento, sendo cada caso analisado e estudado pelo médico de maneira minuciosa.

O Crosslinking cura o Ceratocone?

O Crosslinking não cura o ceratocone. O seu objetivo é conter a progressão, “congelando” a córnea em seu formato atual. As consequências deletérias da progressão são baixa de visão e necessidade de transplante de córnea (realizada em casos avançados). É importante ressaltar que o objetivo do crosslinking não é melhorar a visão e sim estancar a progressão da doença. Óculos ou lentes de contato ainda poderão ser necessários após o crosslinking.
Quem pode fazer o Crosslinking?
Os pacientes devem ter, como regra geral, uma espessura corneana mínima de 400 µm no ponto mais fino (em casos selecionados há a possibilidade de se realizar o procedimento em córneas mais finas). É contra-indicado para casos com cicatrizes na área central da córnea. Essa técnica, realizada na Europa desde 2000, tem apresentado excelentes resultados e risco mínimo de complicações.
Pode haver necessidade de se repetir o procedimento?                                                                      
O procedimento pode ser repetido para casos em que não houve estabilização (em raros casos).
Onde é feito o Crosslinking e quanto tempo dura o procedimento?
O Crosslinking é realizado em centro cirúrgico, leva em torno de 30 minutos, sendo um procedimento indolor.
Qual é o melhor momento de se realizar o Crosslinking?
O melhor momento para o Crosslinking ser realizado é antes do ceratocone evoluir para formas avançadas e cursar com baixa acentuada da visão. Isso não significa que pessoas com doença avançada não possam realizar o procedimento. No entanto, o resultado do crosslinking realizado nos casos avançados não são tão bons quanto nos casos de ceratocones iniciais.
 Anel intra-estromal (Anel de Ferrara):
O Implante de Anel Intra-estromal (Anel de Ferrara) é uma cirurgia com o mesmo objetivo de regularização da superfície corneana relatado para as lentes de contato. O seu intuito consiste em causar um aplanamento da córnea e assim diminuir o alto grau de astigmatismo dos pacientes portadores do ceratocone.
O procedimento é realizado em centro cirúrgico com anestesia local, sendo rápido e indolor, possibilitando um retorno breve às atividades habituais. Atualmente com o advento do laser de femtosegundo o implante do anel intra-estromal pode ser realizado com muito mais eficiência e previsibilidade, com a consequente melhora do resultado final da cirurgia.

O transplante de córnea

O transplante de córnea é um dos procedimentos mais bem-sucedidos de transplante de órgãos realizados na medicina e, por isso, é uma grande esperança dos pacientes que apresentam ceratocone de difícil controle.

Vale a pena reforçar que, mesmo com essa opção, somente 10% dos ceratocones diagnosticados precocemente e tratados podem evoluir para essa situação em que o transplante se faz necessário. Nos outros 90% dos casos, os tratamentos clínicos e as cirurgias são capazes de controlar o problema.

É claro que, mesmo o transplante de córnea sendo um procedimento de bastante sucesso, ele não está livre dos riscos relacionados a qualquer procedimento cirúrgico mais invasivo. Por esse motivo, os oftalmologistas sempre tentam realizar algum tipo de controle clínico da doença antes de optar por esse tipo de conduta.

Todos os outros procedimentos cirúrgicos apresentados acima são mais simples do que o transplante de córnea e costumam ajudar a evitá-lo na grande maioria das vezes.

É importante ressaltar que um portador de ceratocone leve ou moderado jamais tem por opção pular etapas e realizar estes tratamentos na esperança de cura, sendo este procedimento realizado apenas em último caso (quando todos os outros tratamentos não forem suficientes ou em situações em que há perda importante da transparência da córnea).

O Ceratocone tem cura?

O ceratocone, portanto, é uma doença que pode ser considerada com controle e tratamento satisfatório, porém sem cura até o momento. Apesar de ser frequentemente negligenciada por ter sintomas muito similares ao de outras condições clínicas oftalmológicas mais simples, o ceratocone deve ser sempre examinado e diagnosticado precocemente pelo profissional médico responsável pelo paciente que apresenta essas queixas características.

E você, conhece alguma pessoa que tem ceratocone? Ou você mesmo se identifica com esses sintomas? Compartilhe a sua experiência e tire as suas dúvidas com a gente!

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E não esqueça de visitar o seu oftalmologista de confiança regularmente!

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Ricardo Filippo
Oftalmologista
Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Durante sua vida acadêmica, participou de dezenas de congressos e simpósios, no Brasil e no exterior, e ministrou diversas aulas sobre Oftalmologia. Para mais informações sobre sua experiência na área,
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