A visão é o sentido mais importante do ser humano e cuidar bem dela deve sempre ser uma prioridade. O ceratocone é uma das doenças mais comuns quando falamos em saúde dos olhos: quase todo mundo conhece alguém que passa por esse problema, que é progressivo e atinge aproximadamente uma a cada duas mil pessoas.

Essa doença altera a elasticidade e resistência da córnea, tornando-a mais fina e alterando seu formato, o que impossibilita a pessoa de enxergar direito. Como consequência, há perda da acuidade visual, especialmente na visão noturna e alguns podem desenvolver fotofobia.

Até então, existiam apenas tratamentos paliativos para minimizar o incômodo, mas, nos últimos anos, surgiu o crosslinking, uma técnica que visa a não progressão do quadro, evitando que o ceratocone avance ou piore. Continue lendo e conheça um pouco mais sobre essa novidade:

O que é o Crosslinking?

O crosslinking é um novo tratamento cirúrgico que permite aumentar a resistência da córnea, deixando-a mais estável.

Por meio dessa técnica, é possível retardar ou até parar os danos causados pelo problema, evitando, assim, a perda da acuidade visual e até a necessidade de um futuro transplante de córnea.

Estima-se que 21% dos pacientes de ceratocone acabam precisando do transplante. A nova técnica poderá baixar esse número.

Uma das vantagens do crosslinking é que mesmo pacientes que já fizeram cirurgias prévias nos olhos podem se valer de seus benefícios. Ele fortalece a estrutura corneana por meio da indução de ligações entre as moléculas que a compõem. As fibras de colágeno darão mais sustentação e ficarão mais unidas.

Como surgiu o Crosslinking?

Há muito tempo, os médicos vêm buscando uma forma de minimizar os efeitos da doença e manter a saúde visual dos pacientes com ceratocone. Embora a técnica de crosslinking possa ser considerada recente, ela surgiu na Europa há algum tempo — quase 20 anos atrás.

Inicialmente, a técnica era usada para a correção de miopia com poucos graus. Depois, ela passou a ser usada para melhorar a acuidade visual dos pacientes com ceratocone e também aumentar a sua tolerância a lentes de contato.

Como a córnea com ceratocone tem uma superfície irregular, o uso das lentes pode ser muito incômodo.

As primeiras experiências com a técnica foram feitas na Alemanha e na Suíça, mas, atualmente, o procedimento já está sendo experimentado em diversos países, como da própria Europa, nos Estados Unidos e na Austrália. Hoje existem mais de 10 mil pacientes beneficiados com essa cirurgia no mundo!

Quais são os procedimentos?

crosslinking serve para estabilizar o ceratocone, atuando no colágeno corneano

A cirurgia é minimamente invasiva e pode ser feita apenas com anestesia tópica, usando colírios. O procedimento dura em torno de uma hora, e o paciente é dispensado imediatamente, sem necessidade de internação, repouso e jejum.

A técnica consiste na aplicação de um colírio especial à base de riboflavina (vitamina B), que, posteriormente, é ativado por um feixe de luz ultravioleta. Isso estimula a contração e união das fibras de colágeno, o que aumenta a resistência da córnea e reforça sua estrutura. Esse procedimento minimiza consideravelmente as chances de progressão do ceratocone e pode retardar sua evolução — até mesmo estagná-lo.

O último passo, depois da aplicação da luz, é a colocação de uma lente de contato terapêutica. Ela atuará como uma espécie de curativo sobre a retina, enquanto o epitélio cicatriza. Esse processo leva em torno de sete dias e, depois desse prazo, a lente deve ser retirada.

Como é a recuperação?

Juntamente com a lente de contato terapêutica, o paciente deverá usar um colírio antibiótico por sete dias e um colírio anti-inflamatório durante um mês.

A cirurgia do crosslinking é relativamente simples, e não requer resguardo. Até a retirada da lente, os pacientes podem sentir um grau de desconforto, com a sensação de um corpo estranho nos olhos. É comum sentir ardência e dor leve à moderada, que são controladas com analgésicos comuns.

Também é bastante comum que os pacientes fiquem com um grau de fotofobia após a realização do procedimento. Isso é facilmente contornado com o uso de óculos escuros de boa qualidade.

Logo depois da cirurgia, é provável que a visão fique um pouco embaçada. A recuperação da visão acontecerá gradualmente. Em geral, ela volta ao normal depois de 30 dias. Em alguns casos, os pacientes experimentam uma pequena melhora na visão, ainda que esse não seja o objetivo do procedimento.

Pode ser feito em todos os portadores de ceratocone?

As pesquisas realizadas até agora apontam que o crosslinking pode estabilizar o ceratocone em até 90% dos casos. No entanto, os melhores resultados foram obtidos em pacientes mais jovens.

Os pacientes com maior indicação — e também os que terão maiores benefícios — são adolescentes com diagnóstico recente de ceratocone que está progredindo rapidamente. Essa é a opinião do oftalmologista Raymond Stein, professor da Universidade de Toronto, no Canadá.

Todavia, Stein apresenta restrições quando se trata de pacientes adultos. Para ele, só é indicado o crosslinking a pacientes acima dos 30 anos quando a doença apresentou progressos nos últimos três meses.

Aqui no Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) desaconselha a prática da cirurgia em pacientes com idades superiores aos 40 anos. As pesquisas ainda não comprovaram os benefícios da técnica para esse grupo. E, como toda cirurgia apresenta riscos, deve ser evitada nesses casos.

Além disso, a córnea não pode ter lesões, e precisa ter um limite de 70 dioptrias para que a cirurgia seja realizada.

A técnica do crosslinking vem revolucionando a medicina dos olhos e melhorando o tratamento dessa doença tão comum e prejudicial, que reduz a qualidade da visão de milhões de pessoas em todo mundo. Trata-se de uma forma simples, mas extremamente precisa e eficaz, de trazer esperança para pacientes que antes estariam fadados a perder muito em qualidade de vida.

Como sei se o meu ceratocone está piorando?

Antes de respondermos a essa questão, vamos dar uma boa notícia: o ceratocone não evolui para sempre. Em cerca de 95% dos pacientes, a doença se manifesta na adolescência e se estabiliza por volta dos 25 anos.

Para o paciente, o maior indício de que o ceratocone está evoluindo é a deterioração da visão. Se você já foi diagnosticado com a doença e está percebendo que suas lentes não estão mais corrigindo sua visão corretamente, procure seu oftalmologista, pois a doença pode ter tido um pequeno avanço.

Outra ferramenta para avaliar a progressão do ceratocone é o exame de topografia de córnea, que mede a deformação da mesma.

Para os pacientes com ceratocone, alguns cuidados simples no dia a dia podem fazer uma grande diferença para tornar a progressão da doença mais lenta. Lentes de boa qualidade e corretamente adaptadas são um fator importante.

Além disso, os pacientes de ceratocone devem fazer uso regular de lubrificantes oculares (os chamados “lágrimas artificiais”) e esforçarem-se para não coçar os olhos.

Ainda tem alguma dúvida sobre o crosslinking ? Fale conosco nos comentários e leia também nosso artigo explicando melhor o que é o ceracotone!

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Ricardo Filippo
Oftalmologista
Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Durante sua vida acadêmica, participou de dezenas de congressos e simpósios, no Brasil e no exterior, e ministrou diversas aulas sobre Oftalmologia. Para mais informações sobre sua experiência na área,
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